20 outubro, 2011

Para a garota desconhecida



Ela entrou na estação seguinte
sentou-se ao meu lado
colocando-me num estado febril
foi o suficiente

já não existia ordem lógica em meus pensamentos
fiquei estranho
não sabia que ainda era capaz de ficar assim
insuficiente

esbocei murmurar
gostaria que ela notasse minha displicência
tinha três ou quatro perguntas para lhe fazer
mas não fiz nenhuma

tive uma idéia melhor
tirei meu bloco de anotações
e comecei a escrever-lhe um poema
foi aí que ela notou que eu existia


11 outubro, 2011

Degelo



Preciso pensar em outra coisa
disse ele de si para si
sabia que se continuasse pensando nela

não conseguiria dormir

teve medo de ir ao interruptor
ela poderia surgir
mesmo assim saiu da cama e acendeu a luz
a madrugada se despedia

foi até a cozinha e bebeu leite no gargalo
foi até a janela e fumou um cigarro
no banheiro lavou o rosto sem sabão
não estava só ao mirar seu reflexo no espelho

era ela
que fora atraída pelos seus pensamentos
o cheiro de perfume envolveu toda a casa
o mesmo que ela usara no dia de sua morte



02 setembro, 2011

Escada de emergência



Ela está no final do corredor
chego por trás, pego-a pela cintura
beijo a sua orelha
desço até o seu ombro e mordo

sinto com a mordida
ela gemer e se arrepiar
então, da cintura, minhas mãos sobem
passeio pelo seu corpo até chegar nos seus seios

aperto com voracidade e suavidade
viro-a para mim e lhe dou um beijo demorado
puxo os seus longos cabelos
giro-a de costas para mim novamente

empurro ela contra a parede
lentamente levanto sua saia
com uma das mãos ela escora a parede
com a outra, tira a calcinha



09 agosto, 2011

A feiticeira


Digo baixinho no ouvido dele 
vem cá, vem! me beija... 
viro de bruços 
ele morde minha orelha e depois o pescoço 

na minha vez, deslizo a língua em suas costas
involuntariamente massageio-o com os meus seios
tiro sua roupa bem devagar
me aproveitando de cada segundo do seu corpo

ele segura meus cabelos com força
sinto sua respiração
seus batimentos cardíacos
o calor do seu corpo

ele me beija tanto
que fico sem
ele também fica
sem ar


02 agosto, 2011

Miopia



Começou com uma inflamação
os olhos começaram a inchar
até que as pálpebras estouraram
ao dia, 5 litros de soro para não ressecar as retinas

passei a ter epilepsia devido a uma sociofobia
bastava olhar para alguém
e enxergava os crimes cometidos por ela
através do remorso ou de alguma auto-punição moral

enlouqueci, queria o suicídio
mas fui aprisionado
mantido vivo para uso governamental
disputado por grandes corporações

de segredo em segredo
passei de salvação à perdição
o número de assassinatos aumentou dez vezes
graças a um vídeo que publiquei no You Tube


26 julho, 2011

Fermentação



P
erdi a linha de raciocínio
desconcentrei-me
o vinho tinto marcou seus lábios
me induzindo a uma hipnose

meu poder cognitivo se foi
acho que até mesmo Aristóteles
não entenderia a lógica desses versos
talvez a razão tenha ido fumar um cigarro lá fora

para piorar, as luzes dos automóveis
rompiam o vidro que nos separava da rua
encharcando sua pela branca
evidenciando suas bochechas rosadas de embriaguez

um gole
uma risada roxa
também ri
era o meu argumento



22 julho, 2011

Supercílio



Notei que vinha em minha direção
precisava anotar
a noite chegava
era novembro

ela tinha escoriações no rosto
claro que percebeu que a encarava
e fez questão de me ignorar
não se dobraria

lhe perguntei
onde ficava a rua tal
e também as horas
"acho que vai chover"
ela riu. não iria chover

ri também, pois não sabia mais o que dizer
ela tinha um sotaque
parecia ser de longe
distante


18 julho, 2011

Liquidez


Sou um arquivo para download
é só clicar
encamado por um revertério
meio aquilo proposto por Zigmunt Bauman

mais que um cidadão pós-moderno
preciso de ereção e beijo na boca
se o meu cigarro chegar até o filtro
não tem problema, acendo outro

nós dois temos um prazo de validade
semana passada, na sua última ligação
disse um discreto “até breve”
um contra-fluxo

na prateleira posso escolher
idade, cor dos olhos e altura
uma paixão passageira
uma fragilidade coletiva


17 julho, 2011

Antroposofia



Minha memória às vezes falha
simplesmente deixo de lembrar
a janela ficou aberta num dia de chuva
cenário para um sonho

substitui os comprimidos pelo retrato dela
homeopatia que nada
o sofrimento purifica
sentir sua falta me deixa parado no ar

o acaso
um deslocado enlouquecido
descolado e destoado
mais um pouco e desabo

não sei como começou
como foi mesmo?
ah sim
foi sorte eu acho



08 julho, 2011

A.V.C.


Dia turvo
mente torpe
trote torto
um tropeço

a linha reta me desafia
o sol de inverno me engana
o corrimão é solidário
a padaria não tem trocado para o pão

se você disser que sim
eu acredito
se você me abandonar
eu resisto

meus joelhos encontram o chão
desencontros na Plataforma 3
o que tenho no estômago sai
a solidão fica