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24 julho, 2010

A mercê das manhãs


Eu, pecador
me confesso
nessa manhã de domingo
voltando do banheiro
e pedindo um croque monsieur
Eu voltei pro alcoolismo
se tenho que ver essa garota linda
quase etérea no balcão
intimidando meus passos
a carinha de Juliete Binoche
perguntando: “o que cê tá fazendo?”
“você não tá gostando?”
“continua”.
meus dedos roçando suavemente
o lóbulo de sua orelha
atravessando a cidade
morrendo no balcão de uma padaria
Tenho a bandeira brasileira na porta do meu quarto
e um 38 na gaveta do criado
Tenho os olhos injetados
quando leio um poema do Del na frente do hotel
não preciso beber vodka
ninguém vai cheirar meu hálito quando eu chegar em casa
não tem ninguém esperando por mim nessa manhã
peço um corn flakes e misturo com cerveja
Se esse poema parece um epitáfio
é porque descobri que só é possível morrer
quando os deuses se distraem
Vou entrar num restaurante coreano
e pedir um karaokê
Me parece um bom lugar pra morrer


(Um bom lugar para morrer, novo livro de poemas de Mário Bortolotto)

14 julho, 2010

O cara que mudou esse blog

a minha homenagem

10 FEVEREIRO, 2009

Futuras linhas

Achei interessante o filme
Anti-Herói Americano
conta a história de Harvey Pekar
autor da série de quadrinhos American Splendor

tanto que me fez pensar
na maneira que conto o Nada Rima
focando não em pessoas imaginárias
mas em mim

nada de egocentrismo
quero que o leitor viva comigo
experiências verdadeiras
ou mais ou menos isso

não sei se isso vai durar
posso mudar na próxima história
mas pensando bem
muitas histórias já tinham algo assim
homenagem de Mário Bartolotto:

A MANHÃ OUVINDO FRANK SINATRA

http://atirenodramaturgo.zip.net/

Fiquei sabendo agora que o Harvey Pekar morreu. Por coincidência tava ouvindo Frank Sinatra. Não sei porque mas sinto que há uma ligação entre eles, embora Harvey fosse do tipo que ouvia blues antigo. Ele conheceu Crumbcomprando discos antigos de blues como aparece no filme "O Anti-herói americano" que retrata a vida de Harvey e é brilhantemente interpretado por Paul Giamatti. Os dois ficaram amigos. Crumb passou a desenhar as histórias deHarvey. Tô ouvindo Frank Sinatra e com vontade de assistir novamente o filme. Talvez faça isso. Talvez releia "Bob e Harv" que a Conrad lançou por aqui. Aliás, é o único Pekar no Brasil. Ele chegou até a escrever uma história sobre osBeats (The Beats: a graphical history). Vamos esperar que saia por aqui. Sinto que há uma ligação entre Harvey eSinatra. Também sinto que há uma ligação entre ele e meu amigo, o brilhante escritor Marcelo Mirisola. Lembro de assistir o filme e ficar o tempo todo pensando no Mirisola. Era como se o Paul Giamatti conhecesse Mirisola. Bem, ele conhecia Harvey. Meu amigo Fábio Espósito (o Xepa) que interpreta genialmente o Mirisola no teatro (em "O Herói Devolvido" - quem ainda não viu, vai ter a oportunidade de ver na nossa V Mostra Cemitério de Automóveis emSetembro), poderia interpretar o Pekar, ou interpretar o Paul interpretando o Pekar. A verdade é que há uma ligação entre todos eles. Uma ligação que não sei explicar. Vou ficar por aqui ouvindo Frank Sinatra. Talvez releia Pekar. Grande Cara.


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olha aí o trailer do filme:


18 maio, 2010

Ah, vai se fuder, Rosanna Arquette!


Cala a boca, tá? Você não queria me ouvir falar? Então cala a porra dessa boca. Cala essa sua maldita boca e me ouve. Você tava me achando patética? Patético é você falando sem parar, querendo se mostrar articulado, capaz de fazer equivalências cinematográficas. Que que é? Tá tentando me impressionar com sua cultura de "Guia de Cinema"? Vai tentar impressionar o Rubens Ewald Filho e vê se me deixa em paz. Eu não tava me fingindo de muda, idiota. Eu tava camuflada. Eu me camuflei de muda, entendeu? É diferente. Você quer saber o que é patético? Então presta atenção: Meu pai num canto do quarto, sozinho, entrincheirado, assistindo tv e alheio do resto do mundo. Eu lembro dele pelado lá na frente da tv. Ele ficava assistindo a tv completamente pelado. Ele parecia com a Yoko Ono na capa do "Two Virgins". É, ele se parecia com a Yoko Ono, é esquisito falar isso, né? Falar que o seu pai se parecia com a Yoko Ono, mas é verdade. Tá sacando o tamanho do patético? Eu tinha um pai que se parecia com a Yoko Ono e ele ficava o dia inteiro pelado assistindo tv e bebendo vodka, sintonizado em algum canal na sua cabeça maluca. Um canal que nenhum satélite tinha a manha de alcançar. E às vezes ele soltava um grito, do tipo assustador. Um grito de aflição ou de pavor, se você for capaz de distinguir um do outro. Do tipo que você ouviu agora há pouco, sabe como? Aí ele se tocava e ficava constrangido por ter gritado sem um motivo aparente, um motivo perceptível. Podia ser um filme de terror no canal da sua cabeça, um Nosferatu do Murnau, já que você é chegado em equivalências cinematográficas. Ele ficava constrangido e se recolhia de novo pra aquele mundo estranho que só ele conhecia e do qual a gente devia manter uma distancia segura, do seu canal particular, um canal a la carte conectado aos cabos da sua cabeça. Eu lembro dele assustado, na maca do hospital. Uma criança assustada acorrentada ao corpo de um velho. Um velho com sua dor, uma dor que alguém queria arrancar dele. Uma dor que ele passou pra mim. Um susto que durou tempo demais. E eu fiquei lá arrepiada, com os sentidos alterados por alguma espécie de adrenalina aflitiva. Eu pensava : "Essas coisas terríveis só acontecem em ER ou nas casas dos outros". Eu devia prever. Você não pode ter um pai que parece com a Yoko Ono e achar que tá tudo normal. Meu pai queria fugir daquela maca, algum sacana num momento de distração foi lá e mudou o canal da sua cabeça, ele queria voltar pra frente da sua tv, pra sua vodka e pro seu jornal. E meu pai gritava com a voz pastosa : "Me tirem dessa merda". Mas a gente se fez de surdo, a gente fazia de conta que não tava entendendo. Ou sei lá, vai ver a gente nem tava mesmo. A gente tava ocupado demais sentindo medo. A enfermeira com carinha de Rosanna Arquette...tá vendo só como eu sei realmente fazer equivalências cinematográficas? Acho que eu também sou capaz de impressionar o Rubens Ewald Filho...A enfermeira com carinha de Rosanna Arquette chegou pra mim e disse : "Eles costumam ficar agitados nessa hora". Ah, vai se fuder, Rosanna Arquette. Vai chupar algum plantonista de merda na cozinha do hospital. Não me vem com essa complacência, com essa falsa bondade escrota. Eu sei do que tô falando. O cheiro do hospital, o cheiro insuportável do hospital, os tubos, o médico que não aparecia, eles sempre tão em alguma emergência, você já reparou que eles sempre tão em alguma emergência? A minha mãe que ficava ligando no meu celular, as fraldas, o bip dos aparelhos. Eu corri pro corredor. Concentrei toda a atenção na minha mão, nas linhas da minha mão. Tem um mistério ali. As ciganas tão certas em tentar decifrar. Tem um mistério ali. Nas linhas da mão. Eu fiquei ali, olhando pra ela, tentando inutilmente decifrar o mistério, rezando pra que o mundo parasse, o canal da minha cabeça desligasse e me conectasse imediatamente com um canal estranho e pra que eu pudesse gritar de pavor como o meu pai assistindo algo tão assustador como Nosferatu do Murnau.

ISIS, de Mário Bortolotto (do roteiro do filme "Meu mundo em perigo").

17 maio, 2010

O desespero da diversão incomoda


É como se a regra da Virada fosse assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar presente em todos os lugares

MÁRIO BORTOLOTTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

E algo me dizia que não devia ou que não conseguiria. Quando me pediram pra escrever um texto com minhas impressões sobre a Virada, pensei: "Mas eu vou participar disso?"
Saí anteontem de casa por força de compromissos profissionais. Tinha um show pra fazer com a banda Saco de Ratos e uma apresentação da peça "Música para Ninar Dinossauros". Não fosse por esses compromissos, não teria colocado o nariz pra fora do meu "bunker-kitchenette" nem para aspirar o doce ar da noite paulistana (e isso não é nenhuma ironia), que anteontem estava por demais aflitiva, aumentando em escalas assustadoras minha crescente agorafobia.
Talvez ainda esteja longe de me tornar um antissocial, mas tenho de confessar que já não me sinto à vontade em lugares apinhados, mesmo sabendo que tenho de atravessar o viaduto do Chá na hora do rush três dias por semana. Acho que a Virada tem tido um efeito positivo nas pessoas que assistem aos shows -e também nos artistas que trabalham. Então, este não é um texto antiVirada. É simplesmente minha "trip" personalíssima e atual.
Minha retirada exclusivamente voluntária se baseia na ideia de que não consigo me divertir onde muitas pessoas buscam desesperadamente fazer o mesmo. E é justamente esse "desespero" que me incomoda.
A diversão não me incomoda, muito pelo contrário. Gosto de me divertir e gosto de ver as pessoas se divertindo.
Mas o desespero me incomoda, e a alegria se revela paradoxal, como se fosse necessário assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar onipresente nos lugares. E, obrigatoriamente, se divertindo muito.
Essa é a regra, não é?
Me parece um reflexo do tipo de aflição que nos persegue atualmente. Nossos trabalhos são tão chatos, nossas opções de vida se mostraram tão insatisfatórias e a diversão é tão rara que agora nos sentimos obrigados a usufruir da maneira mais violenta possível nas ocasiões em que ela se manifesta.
Foi o que melancolicamente senti anteontem à noite enquanto procurava desviar da multidão apressada para proteger meu braço recém-operado e revestido de titânio.
Vendo as pessoas tomadas por uma alegria forçosamente intensa e por uma espontaneidade que me remete a festas lisérgicas, fui ficando irreversivelmente desanimado. Minha alma frouxa foi se acabrunhando de maneira terrível, e tudo o que eu queria era alguma espécie de fuga, um retiro voluntário, um exílio pré-determinado. Algum tipo de paz.

Coliseu moderno
Talvez tenha a ver com a idade, ainda preciso pensar nisso, pra não parecer leviano com minhas próprias atitudes. Mas enfim: o que sei é que talvez seja necessário fazer uma reflexão maior.
Hoje, nós temos os quatro dias de Carnaval, o futebol de domingo, o chope do sábado à tarde. Na Roma Antiga, era o Coliseu, uma espécie de válvula de escape da multidão que, pelo menos em uma hora ou duas, se sentia aliviada vendo leões devorando cristãos ou gladiadores tendo as cabeças decepadas. Não vou simplesmente virar meu polegar pra baixo ao falar da Virada, mas também não vou fazer o sinal de positivo.
Continuo achando que há algo estranho numa sociedade que precisa "desesperadamente" se sentir aliviada e feliz por algumas horas. Não deveria esse ser um direito nosso o ano todo?

06 dezembro, 2009

Força aê!!!


Hoje, domingo, às 21h os amigos vão se reunir no ESPAÇO PARLAPATÕES para homenageá-lo.
Serão lidos alguns textos dele e músicas.
Aberto ao público.

16 maio, 2009

Texto de Bortolotto

NEM ISSO, NEM AQUILO 
ISSO, MEU VELHO, SE CHAMA RITMO

Meu pai chegava virado e detonava. Quebrava a casa inteira e cobria minha mãe de porrada. Na minha infância essa cena foi uma constante. No dia seguinte, já sóbrio, ele se arrependia e envergonhado pedia desculpas, sacava as economias e comprava uma cozinha toda nova, quer dizer, mesa, cadeiras e o que mais ele tivesse quebrado. Se eu fosse um merdinha politicamente correto ia entrar numas de ficar odiando meu pai, ia ter algum trauma mal resolvido ou qualquer outra dessas viadagens, mas como sou feito de outra substancia, sempre procurei ver as coisas da minha maneira e não do jeito que o coro fazia questão. Meu pai era um puta maluco, pau d´agua, motorista de caminhão, bronco, machistão e violento. Esse era o cara. O que eu podia esperar dele? Afeto despudorado e festinhas de aniversário? Lá em casa a gente nunca sequer chamou ele depapai. Porra nenhuma. Era "bença, pai" e "Deus te abençoe, filho". É por isso que me revira o estomago quando vejo algum bostinha chamando o genitor de papi. Dá vontade de vomitar. Um cara desses vai crescer e vai achar que a tal da Maitena é que tá certa. Vai se emocionar vendo novela de tv e vai ter pôster do Paulo Coelho no quarto. Periga até o cara ficar tenso num filme pau mole como o Carandiru. E quando algum mulherão der bola prum sujeito desses, o panaca vai ficar perdidão e vai acabar escrevendo pro Bonassi na Revista da Folha pra pedir conselho. Quando ficar tete a tete com a mulher vai achar normal quando rolar o fio terra sugerido pela gostosa. Solta um fresquinho desses dois dias numa perifa de verdade pra ver se ele sai vivo. De onde eu vim, meu camarada, se a gente pedia conselho, descobria do pior jeito o caminho pra casa. Quando eu já era adolescentão, meu pai um dia chegou em casa e detonou a pancadaria, partiu pra cima da minha mãe com tudo. Eu derrubei ele no chão e o imobilizei. Não que eu fosse grande merda, que isso fique bem claro. Meu pai era muito mais forte e mais fodão que eu. É que ele tava briaco. Foi só por isso que eu levei vantagem. Ainda bem, porque assim eu consegui livrar a cara da minha mãe, pelo menos dessa vez. Fiz ele prometer que não ia mais partir pra cima da minha mãe e só depois eu o soltei. Meu pai ficou frio e foi tomar banho. Como todo homem de verdade, ele sempre foi um cara de palavra. No dia seguinte, eu tava sentado no chão da sala assistindo tv. Minha mãe tava deitada no sofá. Meu pai foi até o quarto, pegou o 38 e engatilhou na minha cabeça. Então ele falou : "Na próxima vez que você tocar em mim, eu acabo com sua raça." Eu respondi friamente : "Olha, Pai, eu nunca quis machucar o senhor. E eu sei que o senhor é homem de palavra e tudo o mais. Mas se o senhor partir pra cima da mãe de novo, eu vou ter que fazer a mesma coisa que fiz ontem." Ele desengatilhou a arma e saiu sem dizer mais nada. Nunca mais ele bateu na minha mãe e eu nunca mais tive que sair na mão com ele. Acho que foi melhor pra todo mundo. Ele ficou na noite quebrando alguns bares e arrumando encrenca com uma pá de caras do mesmo naipe dele, sei lá se numas de apaziguar os seus demônios ou sei lá como a gente deve chamar isso. Sempre procurei compreender o meu pai e toda a angústia que com certeza, ele carregava com ele. É fácil sair por aí julgando a rapaziada. É só seguir a cartilha do bom mocismo. Qualquer panaca politicamente correto faz isso e depois ganha medalha Meninas Veneno. Eu quero que esse bando de cornos queimem seus rabos no inferno. Meu pai fez muita bosta, a maioria delas com minha mãe que nunca mereceu, já que era uma senhora gente boa pra caramba, sofrida, que veio de pau de arara de Alagoas e nunca conseguiu ser feliz na merda dessa vida, mas o fato dele ter feito essas merdas não altera o fato de que meu pai era um homem de verdade, como quase não existem mais por aí. Ele também fez coisa boa pra cacete, entre elas, criar dignamente três filhos. Dois homens e uma mulher de verdade. Gente sem frescura e com vergonha na cara. Gente que respeita os outros, embora não levem desaforo pra casa. E eu tenho o mó orgulho e a mó saudade do meu Pai, do mesmo jeito que tenho da Mãe. Quem não concordar comigo, que se foda. Tenho me olhado no espelho e tenho sacado que cada dia que passa tô mais parecido fisicamente com ele. As vezes até me assusto com a semelhança. Principalmente agora que os cabelos brancos já me ocupam quase que inteiramente a cabeça e minha barriga de cerveja se acentua mais a cada dia. E olhando pra essa foto com a minha filha que a Jacqueline tirou, eu saquei o quanto ela está ficando parecida comigo. É evidente que ela é muito mais bonita (ainda bem), mas caralho, não dá pra negar a semelhança. Eu já não tenho pai e não tenho mãe. Minha mãe morreu doente, acho que de infelicidade (as pessoas também morrem disso) e meu pai morreu anos depois de atrofia cerebral (de tanto beber), mas eu tenho uma filha linda que cada dia que passa fica mais parecida comigo. E eu tenho um espelho em casa e olho e percebo o quanto tô parecido com meu pai e o quanto minha filha tá parecendo comigo e cara, dá um nó, brother. Dá até vontade de chorar, meu velho, mas eu não sou um sujeito dado a essas coisas. Eu não sou de ficar fazendo certas coisas na frente dos outros. Sendo assim, ergo o copo de conhaque e brindo a meus poucos motivos de orgulho. Eu sei que nada disso vai durar pra sempre, mas quem é que quer ficar nessa merda pra sempre? Deve ter coisa melhor esperando pela gente por aí. Se não, porque merda Deus aprontou essa com a gente?

fonte: http://atirenodramaturgo.zip.net/

16 março, 2009

Os amigos são pessoas que sentam na mesma mesa que a minha. Ou então que sentam na calçada e dividem copos de cerveja  e angústias. Os outros são pessoas com quem não faço a menor questão de me relacionar. Que Deus me livre dos malas e dos sujeitos mal intencionados. Acreditem, há muitos deles por aí. Só quero fazer bem o meu trabalho, acertar as oito bolas no menor tempo possível e beber meu whisky devagar e sem nenhuma ansiedade.  Não quero muito da vida. Só a manhã que há de vir.  E eu ainda espero estar por aqui pra recebe-la com uma encabulada declaração de amor.  

06 fevereiro, 2009

VHS

" (...) Saio à noite, vou aos bares que costumo frequentar. Vou numas de trombar com os amigos, simplesmente. Conversar um pouco e beber. Na verdade estou cansado de bares. Queria encontrar uma maneira de não frequentar mais bares. Frequento bar desde que era um moleque recém saído das fraldas. Meu pai nunca foi de me levar pra passear em lugar nenhum, mas de vez em quando ele ia beber e me levava junto com ele pro bar. Eu já gostava muito. Também fiz isso com minha filha. Ela mal sabia andar e já frequentava bares comigo. Lembro dela andando entre as mesas com menos de 2 anos de idade e toda a rapaziada a conhecia. Davam chocolate e refrigerante pra ela que adorava. Até hoje ela gosta de ficar nos bares comigo. Continua se divertindo. Mas eu é que não tô me divertindo mais. Quando um bar é bom, a música é ruim. E eu não suporto música ruim. Não há nada que me tire mais do sério. Bar quando quer segurar cliente atrai todo tipo de mala sem noção. Perde a personalidade porque quer agradar todo mundo. E vamos ser francos, ninguém agrada todo mundo. Ainda bem. E nós que somos frequentadores, temos que conviver. Sem contar que sempre trombo com algum (ou alguma) filho da puta e acabo perdendo a cabeça, quase saindo na porrada, esse tipo de merda. E não tenho o menor interesse nisso. Mas acho que essa é a média da humanidade, né? (...)"

leia o texto completo de Mário Bortolotto aqui:

21 janeiro, 2009

NAQUELA NOITE 

Naquela noite eu não fiz nada que não confirmasse plenamente minha opção de vida, meu sacerdócio. Não decepcionei meu fígado bebendo menos do que ele esperava. Não fui pra casa e fiquei ouvindo alguma música vagabunda em alguma rádio de Internet. Não pedi desculpas, nem admiti erros que não cometi. Em vez disso, apenas andei sem rumo como costumo fazer quando as coisas fogem do controle. Entrei em bares e bebi Domecq como não costumo fazer. Sempre vou de whisky, mas naquela noite a porra do bar não tinha gelo. Então fui de Domecq já que a merda do boteco também não tinha Jack Daniels. Vi uma mulher fazendo um boquete num sujeito dentro de um carro e o cara não parecia feliz. E quer saber? Não o culpei por isso. Tenho evitado apontar o dedo na cara de quem quer que seja. Tenho pensado insistentemente que no segundo seguinte posso estar sendo chutado com a cara no chão. Então que adianta bancar o fodão? Penso que apenas devo fazer as coisas do meu jeito antes de atravessar a fronteira. Dizem que é pra breve. Naquela noite, pessoas morreram em algum lugar. Outras enlouqueceram. Algumas até pareciam felizes. Eu era só um cara andando sem rumo e bebendo Domecq como não costumo fazer. Mas teve um momento que eu me emocionei ouvindo no telefone uma amiga que contava chorando sobre o amigo que ela tinha perdido. Definitivamente perdido. Algumas coisas são definitivas. Eu estava bêbado demais pra acreditar que aquele era o lugar ideal, pra se estar, naquele momento, naquela hora da madrugada. Mas não era uma noite perfeita. Eu estava bebendo Domecq. Pensando bem, era uma noite bem esquisita aquela. Então voltei pra casa. Minha filha estava dormindo. Ela parecia tranqüila. Abri as janelas e respirei com dificuldade. O telefone tocou e eu deixei tocar. Deitei na rede e dormi como fazem os caras que não traem seu estilo de vida, seu sacerdócio. Foi uma noite filha da puta de desgraçada, mas ainda era eu que estava ali balançando naquela rede. E ainda era eu quando finalmente adormeci. Eu merecia um sonho bom. Naquela noite.



 Escrito por Mário Bortolotto