16 maio, 2011

Plano piloto


Peguei o ônibus na W3
o combinado era encontrá-la na L2
mas me distraí fazendo um barquinho de papel
deixei-o com a senhora que estava ao meu lado

desci no ponto seguinte
noite fria
a lua como testemunha
passos apreçados

chegamos ao mesmo tempo
ela, mais bela do que nunca
correu em minha direção
pulou e me abraçou

dei dois ou três giros no ar
ela me puxou pela gola e me beijou
trazia algo em sua mão
um barquinho de papel



Não aqui


Frente a frente
espero que ela fale alguma coisa
e com a mão no queixo e o cotovelo na mesa

me diz que estou muito quieto

eu não sei o que dizer
espero ela terminar o jantar, meu prato já está vazio
em sua taça deita o último gole
uma estratégia

ela gosta de carménère
por isso não pedi cabernet sauvignon
no arremate ela fechou os olhos
os vinhos aqui estão a uma temperatura de 17º

decodifico o seu sorriso
levanto a garrafa e digo mudamente para o garçom:
mais uma
tínhamos pressa, não temos mais


10 maio, 2011

Desdobramento


Espirrou sangue pra todo lado
um golpe certeiro na cabeça
parte do cérebro saiu junto com a mandíbula
o tronco inflou, expondo alguns ossos da costela

me livrei do corpo
mas o acontecido se repetia nos meus sonhos
ora ao som de Charlie Parker
ora ao som de Ravi Shankar

passei a ver vultos
sempre de relance
nas portas e nas janelas
dentro do ônibus, dentro do metrô

um dia vieram tirar a minha vida
dois homens, duas facas
resisti, mas não por muito tempo
afoguei-me com o sangue que saia da minha boca


03 maio, 2011

Em pessoa


T
emos o poder de transformar o tempo
gira-gira-gira-gira
depois de dez anos estou de volta
você só me conhece por fotografias

nossa conexão foi imediata
quando percebi já era tarde
sou indeciso
mas com você foi diferente

quando caiu de bicicleta
não estava aí para passar mertiolate no seu joelho
e se jogo esses versos aqui em quartetos
foi porque à eles fui lançado

me arrependo
mesmo dizendo aos outros que não
agora sobrevôo nossa cidade
finalmente estou voltando



27 abril, 2011

Vincent Price


Desperto, o teto na penumbra
giro, deito de bruços
cerco meus olhos com o travesseiro
sinto meu rosto formigar

na verdade tem algo vivo nele
algo querendo sair
caio no chão, bato a cabeça no armário
um ruído horrível

alguém abrindo cascas de amendoim
se digladiam
a fronha se rompe e elas fogem
se espalham, parecem estar famintas

a porta do quarto não abre
escuto novamente o barulho
mais alto, ensurdecedor
está vindo do colchão king size


25 abril, 2011

Burj Dubai


E de repente
imagino que essa poderia ser ela
essa outra também
e mais essa

talvez fosse
resolvo perguntar
ela sorri
diz que sim

pergunto para outra
que balança a cabeça positivamente
é verdade, reconheço-a pois seu rosto não existe
é um borrão

reparo que o coletivo tem asas
as rédeas do monstro são puxadas, se enfurece
pousa no prédio mais alto da cidade
o bicho faminto devora todos os passageiros



21 abril, 2011

Quem tem medo de Virgínia Woolf?


Para os desavisados
estou enlouquecendo
para os que me conhecem
sempre fui louco

perdi mesmo o senso de razão
podem me internar
uma temporada
uma primavera

quero tomar sedativos
fazer terapia
dinâmicas de grupo
choques elétricos

depois disso estarei curado
vou casar e ter filhos
sorrir na Europa em fotografias digitalizadas
vencer na vida, pois a catarse é morrer


19 abril, 2011

Quebra cabeça


Você tem essa mania
se esconde de mim
me mostra a lua
e o Lago Paranoá

porém,
veste com gosto esse véu
só me é permitido ver os seus olhos
deve ser tradição de família

carrego explosivos
na mão direita uma flor
para o caso de um Revolução
estaremos na linha de frente

por favor,
me deixa te desnudar
antes que o exército inimigo chegue
vamos saborear a Liberdade



18 abril, 2011

Arranjo


O maestro entra em cena
todos de pé
é o que sempre acontece
quando ela desponta no horizonte

nos seus cabelos
deslizam os arcos
a melodia do violino e a tessitura do violoncelo
desmancha o coque como o arpejo de uma harpista

quero tocar seus lábios
como num oboé ou clarinete
te deixar sem ar
me deixar sem ar

acaba o primeiro movimento
desavisados batem palma
o entusiasmo ecoa na plateia
auto-controle é algo raro em mim



14 abril, 2011

Estação Grajaú


A
claridade da manhã
chega sem misericórdia
invade a estação
enquanto desço a escada rolante

quero sair deste vagão
muitos querem entrar
as palavras me empurram
minha lapiseira me puxa

há, essa claridade impiedosa
é a mesma que te faz sorrir
quando abre sua janela
é assim que imagino nosso encontro

nossa maluquice
ficaria boa em qualquer poema
pois quero que saiba
que não há nuvens no céu