28 maio, 2010

Rottweiler


Jogávamos futebol na rua
num chute desastrado (nunca fui bom nisso)
a bola caiu num terreno baldio
a altura do mato batia na cintura

encontro a redonda
porém algo me chama a atenção
escuto súplicas não longe dali
vou ver o que é

são cachorrinhos
chego mais perto
escuto um rosnado
é a mãe deles

tento correr mas sou mordido na perna
o visinho desconfiado e com medo
solta no terreno dois dobermanns
corro para o lado errado e me deparo com um muro


24 maio, 2010

Você está entendendo tudo errado


A prefeitura de Tóquio
em comemoração ao aniversário da cidade
resolveu brindar seus habitantes
com diversos show gratuitos

não gosto muito de shows, mas fui a diversos deles
uma amiga minha queria esquecer a morte da mãe
e me arrastou a vários eventos
música, teatro, dança, cinema

acorde após acorde
suas feições iam se transformando
e algo em mim também mudava
na verdade, mais que isso

pedi para ela me seguir
arrastei-a para o meio da multidão
ficamos espremidos nela
quando então começou a chover


Uau!

Vídeo que fiz da Chan Marshall (Cat Power) tocando bateria. Show da Virada Cultural Paulista, em São José dos Campos dia 23.05.2010. Não reparem na qualidade... vale o registro. hehehe Valeu a pena viajar quase duas horas para ver e ouvir uma das vozes mais impressionantes e belas da música pop.


video

21 maio, 2010

Desejo realizado


Ele foi até legal comigo
me deixou no ponto de ônibus
vou para casa tomar um banho
ainda bem que é contra-fluxo

a música triste é lançada
maldita opção shuffle do iPod
uma lágrima cai involuntária
na verdade não deixei ela cair

meus olhos ficam borrados
nunca mais vou ver esse cara na minha vida
e nem queria
penso isso enquanto retoco a maquiagem

preciso treinar a não ter remorso
e também a me acostumar com a solidão
todos pensam que sou feliz
é só dizer que está tudo bem e sorrir


20 maio, 2010

O sexo é o mais pequeno dos sonhos


Me distraí
queria viver para sempre
sonhava com a tecnologia da juventude eterna
acho que distorci as coisas

agora que tenho 54 anos
descobri que tenho câncer
por conta dos excessos da mocidade
tenho pouco tempo

nunca gostei do mar
uma grande bobagem
agora vou de encontro a ele
de peito aberto

seguro a mão de uma criança imaginária
a que eu nunca tive
agora ela está aqui
veio me buscar

19 maio, 2010

Isso não acaba nunca


Vem se aproximando a tempestade
fui me abrigar numa cobertura pequena
um ponto de ônibus
a princípio estava tudo bem

mas não estava nada bem
armei uma arapuca para mim mesmo
a rua se transformara num rio
depois a calçada também

me agarrei na barra de sustentação do ponto
carros eram arrastados
a árvore em minha frente cedeu
e derrubou os fios de eletricidade

a água foi subindo
chegou até o meu pescoço
agarrei uma senhora que estava sendo levada
com isso, o ponto começou a ceder


18 maio, 2010

Ah, vai se fuder, Rosanna Arquette!


Cala a boca, tá? Você não queria me ouvir falar? Então cala a porra dessa boca. Cala essa sua maldita boca e me ouve. Você tava me achando patética? Patético é você falando sem parar, querendo se mostrar articulado, capaz de fazer equivalências cinematográficas. Que que é? Tá tentando me impressionar com sua cultura de "Guia de Cinema"? Vai tentar impressionar o Rubens Ewald Filho e vê se me deixa em paz. Eu não tava me fingindo de muda, idiota. Eu tava camuflada. Eu me camuflei de muda, entendeu? É diferente. Você quer saber o que é patético? Então presta atenção: Meu pai num canto do quarto, sozinho, entrincheirado, assistindo tv e alheio do resto do mundo. Eu lembro dele pelado lá na frente da tv. Ele ficava assistindo a tv completamente pelado. Ele parecia com a Yoko Ono na capa do "Two Virgins". É, ele se parecia com a Yoko Ono, é esquisito falar isso, né? Falar que o seu pai se parecia com a Yoko Ono, mas é verdade. Tá sacando o tamanho do patético? Eu tinha um pai que se parecia com a Yoko Ono e ele ficava o dia inteiro pelado assistindo tv e bebendo vodka, sintonizado em algum canal na sua cabeça maluca. Um canal que nenhum satélite tinha a manha de alcançar. E às vezes ele soltava um grito, do tipo assustador. Um grito de aflição ou de pavor, se você for capaz de distinguir um do outro. Do tipo que você ouviu agora há pouco, sabe como? Aí ele se tocava e ficava constrangido por ter gritado sem um motivo aparente, um motivo perceptível. Podia ser um filme de terror no canal da sua cabeça, um Nosferatu do Murnau, já que você é chegado em equivalências cinematográficas. Ele ficava constrangido e se recolhia de novo pra aquele mundo estranho que só ele conhecia e do qual a gente devia manter uma distancia segura, do seu canal particular, um canal a la carte conectado aos cabos da sua cabeça. Eu lembro dele assustado, na maca do hospital. Uma criança assustada acorrentada ao corpo de um velho. Um velho com sua dor, uma dor que alguém queria arrancar dele. Uma dor que ele passou pra mim. Um susto que durou tempo demais. E eu fiquei lá arrepiada, com os sentidos alterados por alguma espécie de adrenalina aflitiva. Eu pensava : "Essas coisas terríveis só acontecem em ER ou nas casas dos outros". Eu devia prever. Você não pode ter um pai que parece com a Yoko Ono e achar que tá tudo normal. Meu pai queria fugir daquela maca, algum sacana num momento de distração foi lá e mudou o canal da sua cabeça, ele queria voltar pra frente da sua tv, pra sua vodka e pro seu jornal. E meu pai gritava com a voz pastosa : "Me tirem dessa merda". Mas a gente se fez de surdo, a gente fazia de conta que não tava entendendo. Ou sei lá, vai ver a gente nem tava mesmo. A gente tava ocupado demais sentindo medo. A enfermeira com carinha de Rosanna Arquette...tá vendo só como eu sei realmente fazer equivalências cinematográficas? Acho que eu também sou capaz de impressionar o Rubens Ewald Filho...A enfermeira com carinha de Rosanna Arquette chegou pra mim e disse : "Eles costumam ficar agitados nessa hora". Ah, vai se fuder, Rosanna Arquette. Vai chupar algum plantonista de merda na cozinha do hospital. Não me vem com essa complacência, com essa falsa bondade escrota. Eu sei do que tô falando. O cheiro do hospital, o cheiro insuportável do hospital, os tubos, o médico que não aparecia, eles sempre tão em alguma emergência, você já reparou que eles sempre tão em alguma emergência? A minha mãe que ficava ligando no meu celular, as fraldas, o bip dos aparelhos. Eu corri pro corredor. Concentrei toda a atenção na minha mão, nas linhas da minha mão. Tem um mistério ali. As ciganas tão certas em tentar decifrar. Tem um mistério ali. Nas linhas da mão. Eu fiquei ali, olhando pra ela, tentando inutilmente decifrar o mistério, rezando pra que o mundo parasse, o canal da minha cabeça desligasse e me conectasse imediatamente com um canal estranho e pra que eu pudesse gritar de pavor como o meu pai assistindo algo tão assustador como Nosferatu do Murnau.

ISIS, de Mário Bortolotto (do roteiro do filme "Meu mundo em perigo").

17 maio, 2010

O desespero da diversão incomoda


É como se a regra da Virada fosse assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar presente em todos os lugares

MÁRIO BORTOLOTTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

E algo me dizia que não devia ou que não conseguiria. Quando me pediram pra escrever um texto com minhas impressões sobre a Virada, pensei: "Mas eu vou participar disso?"
Saí anteontem de casa por força de compromissos profissionais. Tinha um show pra fazer com a banda Saco de Ratos e uma apresentação da peça "Música para Ninar Dinossauros". Não fosse por esses compromissos, não teria colocado o nariz pra fora do meu "bunker-kitchenette" nem para aspirar o doce ar da noite paulistana (e isso não é nenhuma ironia), que anteontem estava por demais aflitiva, aumentando em escalas assustadoras minha crescente agorafobia.
Talvez ainda esteja longe de me tornar um antissocial, mas tenho de confessar que já não me sinto à vontade em lugares apinhados, mesmo sabendo que tenho de atravessar o viaduto do Chá na hora do rush três dias por semana. Acho que a Virada tem tido um efeito positivo nas pessoas que assistem aos shows -e também nos artistas que trabalham. Então, este não é um texto antiVirada. É simplesmente minha "trip" personalíssima e atual.
Minha retirada exclusivamente voluntária se baseia na ideia de que não consigo me divertir onde muitas pessoas buscam desesperadamente fazer o mesmo. E é justamente esse "desespero" que me incomoda.
A diversão não me incomoda, muito pelo contrário. Gosto de me divertir e gosto de ver as pessoas se divertindo.
Mas o desespero me incomoda, e a alegria se revela paradoxal, como se fosse necessário assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar onipresente nos lugares. E, obrigatoriamente, se divertindo muito.
Essa é a regra, não é?
Me parece um reflexo do tipo de aflição que nos persegue atualmente. Nossos trabalhos são tão chatos, nossas opções de vida se mostraram tão insatisfatórias e a diversão é tão rara que agora nos sentimos obrigados a usufruir da maneira mais violenta possível nas ocasiões em que ela se manifesta.
Foi o que melancolicamente senti anteontem à noite enquanto procurava desviar da multidão apressada para proteger meu braço recém-operado e revestido de titânio.
Vendo as pessoas tomadas por uma alegria forçosamente intensa e por uma espontaneidade que me remete a festas lisérgicas, fui ficando irreversivelmente desanimado. Minha alma frouxa foi se acabrunhando de maneira terrível, e tudo o que eu queria era alguma espécie de fuga, um retiro voluntário, um exílio pré-determinado. Algum tipo de paz.

Coliseu moderno
Talvez tenha a ver com a idade, ainda preciso pensar nisso, pra não parecer leviano com minhas próprias atitudes. Mas enfim: o que sei é que talvez seja necessário fazer uma reflexão maior.
Hoje, nós temos os quatro dias de Carnaval, o futebol de domingo, o chope do sábado à tarde. Na Roma Antiga, era o Coliseu, uma espécie de válvula de escape da multidão que, pelo menos em uma hora ou duas, se sentia aliviada vendo leões devorando cristãos ou gladiadores tendo as cabeças decepadas. Não vou simplesmente virar meu polegar pra baixo ao falar da Virada, mas também não vou fazer o sinal de positivo.
Continuo achando que há algo estranho numa sociedade que precisa "desesperadamente" se sentir aliviada e feliz por algumas horas. Não deveria esse ser um direito nosso o ano todo?