10 dezembro, 2017

Convite à Filosofia


A realidade está fragmentada
temos o mundo inteiro num instante
mesmo assim fico faltando um pedaço
parece que o real desaparece 

um mundo invertido
entre a realidade e a ficção
Smells Like Teen Spirit toca ao contrário
e confunde o meu raciocínio

por favor,
não deixe a realidade acabar
faz de conta
que é tudo normal

estou fugindo
da polícia secreta
falsifiquei meu RG
me esconda por uma noite



23 fevereiro, 2017

Kremlin



Moscou, 1932
Trotski deixou de ser cidadão soviético
indigno de possuir a nacionalidade
do primeiro Estado proletário do mundo

estava no exílio
escrevia muito
pensava muito
em Lênin, Maiakovski, ...Stalin 

era agora um sem pátria
um estrangeiro
à mercê dos seus inimigos
do povo soviético

a dura realidade o cegara
“O Inimigo do Povo”
estava incapacitado de fazer o que mais gostava
agitar consciências e multidões




21 fevereiro, 2017

Etimologia



Pensava que minha degradação moral
tinha origem 
no meu desprezo pela vida
antes fosse

ela tem origem 
em algo bem mais complicado
de tempos em tempos
paradoxalmente, me apaixono pela vida

uma força criadora 
toma conta de mim
sinto vontade de ler Nietzsche
junto com outros cinco livros

passo a organizar as idéias
abro uma garrafa de vinho
sinto a embriagues chegar
e com ela, a escuridão dos pensamentos



03 fevereiro, 2017

Mata-ratos


Avidamente acendi um cigarro
meu pulmão se expandiu 
renunciando a um futuro incerto
expeli a fumaça como um alívio

pensamentos embaralhados
humanidade turva
desta vez
sem referencias cinematográficas

puta que o pariu
lutar não é fácil
mas é o que nos resta
acreditar na nossa intuição

as secreções se multiplicam
me recrutando para algo além
vencido e esgotado pela debilidade progressiva
acendo outro cigarro




24 janeiro, 2017

Ruas de Santo Amaro


Me esquivo da cigana
compro ouro, diz o outro
uma índia guarani estica sua mão
pego o folheto do supletivo

a chuva castiga todos nós
desavisados
desprotegidos
ensopados

se ela estivesse aqui iria lá pra fora
para se molhar sem medo
quando lhe dá vontade
quer beber Coca-Cola

desço pela Alameda
com as mãos nos bolsos
a gola da jaqueta a la Elvis
e uma coleção de lembranças



A Cidade Desejo


Os olhos
são a janela da alma
e da sua janela
posso ver toda a cidade

enquanto recupero meu fôlego
e o suor escorre pelo meu corpo
tomo o último gole de cerveja
já morna

desabo na cama
estacionando meu olhar ao seu
Marco Polo nunca chegou aqui
nem Ítalo Calvino imaginou esse lugar

preciso me vestir
verificar se não estou esquecendo nada
parece tudo certo
existem coisas que só percebemos na despedida 



16 janeiro, 2017

Monocromático


E então 

ela me morde de volta 
sua força é desproporcional 
quase se apóia em mim pela boca 

suas pernas me envolvem 

seus braços me envolvem 
não tenho como escapar 
nem quero 

ela me come 

este sonho pertence a ela 
sou um intruso 
um quadro na parede 

e o que vai acontecer? 

não sei 
só sei que 
deus odeia os covardes



09 janeiro, 2017

Sinestesia


Já aviso 
de bate-pronto
esse é um exercício impossível
mau calculado

talves contratar o Stephen Hawking
para saber das minhas chances
quantos por cento?
não aceito menos que 100%

pode arredondar
não faço questão dos decimais
sou ascendente em Touro
ajuda saber?

quando os sonhos 
se estreitam com os desejos
quero te misturar
com a realidade




02 setembro, 2015

9h30


Uma noite insone 
faça as contas
não, melhor não fazer
tudo parece um labirinto

ideias fritando na chapa
parece cólica
mas são só muros
não tenho coragem para pulá-los

mesmo que tivesse
o que iria fazer lá dentro?
então tome esse Buscopan
e fique tranquilo aí

devo estar lá nas contraindicações 
ou nos efeitos colaterais
mas o duro mesmo 
é que estou aqui e você lá



24 abril, 2015

Bonjour


Abri lentamente meus olhos míopes
a manhã ainda estava desfocada
os contornos estavam esfumaçados
tentei passar meus pensamentos a limpo

mas o máximo que consegui 
foi resgatar imagens incongruentes
e, se for para colorir artificialmente 
é melhor deixar em preto-e-branco mesmo

através de persianas que se abriam 
via o horizonte
comecei a decifrar 
todos aqueles hematomas no meu corpo

uma agulha, um tubo me alimentava
estava meio grogue
mesmo com os olhos abertos
estava vendo fosfenos