07 maio, 2007

Sé Virada (Conflito Urbano, Caos Social, Cultura Pulsante...)


Na Sé, o cheiro era de pólvora. Mas eu prefiro as rosas
Show do Racionais acaba em tiros. Em vez da festa, choque toma conta da praça

por Flávia Guerra

SÃO PAULO - É com os olhos rasos d’água, e de gás lacrimogêneo, que escrevo este lamento. 6h02 da manhã. São Paulo amanhece após mais uma Virada Cultural. No marco zero da maior metrópole do País, a vigília inspirada nas Noites Brancas européias, virou noite turva. “06 de maio de 2007. Madrugada de sábado para domingo. Outono no Brasil. Esta data vai ficar marcada”, profetizou o tão aguardado Mano Brown ao pisar o palco da Praça da Sé, que já havia recebido Alceu Valença e Nação Zumbi.
Os mano bem que tentaram. Guerreiro de fé nunca gela, não agrada o injusto e não amarela. Mas na madrugada, gelou. Injusta noite adentro. E o peso do maracatu atômico do Nação deu lugar ao clima pesado que tomava conta da multidão que se espremia na praça para ver os manos racionais. Mas a noite era de irracionalidade. 1.000 Trutas. 1.000 Tretas. Depois de amargar uma espera de mais de uma hora e meia para ver o Racionais, a multidão já estava amargurada. O caldo foi engrossando. O circo estava armado quando, finalmente, às 4h45, a nação periferia pôde ver um Brown sóbrio, de negro da cabeça aos pés. Elegante em sua incessante luta pela periferia paulistana, o rapper naquela noite perdeu a batalha para as balas, o gás e a tropa de choque.
A treta começou muito antes, do lado esquerdo do palco. 4h15 da matina. Sob as torres da igreja, os manos de São Matheus se estranharam com os Manos de Pirituba. Briga, tumulto, choro. Josafá colou na grade às oito da noite. As costelas dele também. 15 anos, mirrado, olhos vivos, costelas moídas na multidão. Josafá veio sozinho de Perus. Tomou dois ônibus. Gastou uma hora para ver o Racionais. “Vim foi sozinho. Mas vale a pena. Nunca vi os caras ao vivo”, dizia um entediado garoto, que não entendia muito o coco dub afrociberdélico dos manos da Nação Zumbi.
Eles misturam com maracatu. “É bom sim. Mas maracatu? Sei que é isso não. Alfaia?” Alfaia, o tambor de maracatu que a Nação sabe tão bem casar com o peso do rock. A mãe nordestina de Josafá deve saber o que é. Josafá, minutos mais tarde se safaria da maior muvuca provavelmente já presenciada pela tão vivida Sé. “Posso pular aí no cercadinho, moça repórter? O aperto aqui tá pegando.” E o bicho pegou mesmo. Os bicho-soltos de Pirituba barbarizaram. "Chama a polícia!" "Polícia só piora nestas horas. A gente mesmo apazigua", disse a voz da experiência de um segurança do evento. De fato. Paz refeita. Alguns estilhaços.
De Júlio Silva, só restou a camiseta. A calça e a cueca viraram boi de piranha na multidão. Olhos inchados, vergões nas costas. “Eu não tenho nada a ver com a treta dos cara, mano. Como é que eu vou voltar pra casa?” “Apazigua e curte. Tu pensa depois”, aconselhava Wilter Paulo, da Bela Vista. “Também me deixaram pelado, mina. No bate-cabeça, nego veio bater a bombeta em mim. Eu fui reclamar, levei.”
Quem levou mesmo foi a galera do chiqueirinho vip. As cadeiras brancas caprichosamente colocadas à frente do palco para playboy e mano chegado verem o show viraram arma na mão dos revoltados. A galera invadiu geral a área vip. A segurança contratada, sem ajuda da polícia, apaziguou. Pouco depois, o show começou. A paciência venceu. O desodorante também. UH! É Racionais! 4h35. O show começa. “Hoje sou ladrão. Artigo 57. As cachorras me amam, os playboy se derretem.”
Brown cantava o Negro Drama da falta de acesso no Brasil. “Fernando de Noronha para a periferia. Por que só playboy que pode? No Brasil tem muita natureza”, pregava o messiânico Brown. Na periferia paulistana é que não mora o bucolismo. O sorriso não é fácil de brotar na cara dos manos. “Show do Racionais é sempre assim. Sempre tem alguma coisa. Mas sempre acaba tudo bem”, apostava uma fã esperançosa do Aricanduva.
Ledo engano. Naquela noite a treta era das grandes. “Que fita é essa, mano?” Era o certo pelo certo, como dez e dez é vinte. Era certa a treta. A multidão engrossou. O caldo entornou. “Por que eu só falo mal de polícia. Até ladrão me pergunta isso, mano. Por que será? Eu só falo as histórias. A opinião do povo conta muito na letra”, profetizou o rapper. Minutos depois a polícia mostrou a que veio. O lado esquerdo apaziguou. O direito entornou. Vandalismo e briga.
De quem é a culpa? De todos. Brown dizia “Imagina só o Brasil sendo melhor.” Pense! E na multidão, pense no caos. O show parou. “Ei, mano, vamo pará com a treta, meu. Fica na humildade e vamo pensar na vida do irmão. Fé em Deus que ele é justo.” A palavra de ordem desordenou. Uh! Irracionais. “Gambé filha da p...” era o grito de guerra da galera. No marco zero da cidade, todas as regiões se encontram. Todas as periferias se identificam. Todos os manos (sejam eles da quebrada ou não) desembestam. As minas desesperam. Gás, lágrimas. Bombas de efeito moral. Tiros reais. Desmoralizante.
Brown é brasileiro e não desiste nunca. O show continua. As bombas também. “Eu vou falar o que eu tô vendo. Tô vendo uns mano batendo cabeça e todo mundo em volta. Revolta tem hora. Policiais, abaixem as armas. Só tem família aqui hoje. Tem criança. Tem mulher.” Tinha de tudo. Faltou a fé. “Tá suave. Vamos continuar a festa.” A muvuca não suavizou. Nem a polícia. Os estampidos apavoraram. “Rebeldia desnecessária, mano. Vamos apaziguar. Abaixa a arma, polícia.” A multidão invade o palco. Brown é guerreiro de fé. Não amarela. Continua professando sua fé ao lado dos fãs.
“Parabéns, vocês conseguiram. Acabou. Vão para suas casas. Vão com Deus.” 5h06. Brown desistiu. A festa acaba. O gás toma conta da praça. A massa se espalha pelas vielas. Vidros quebrados, grades envergadas, garrafas estilhaçadas. Na Quintino Bocaiúva com a Regente Feijó, carros destruídos. Os mano e as mina fugiam do choque. Esgueiravam-se ora ensandecidos, ora cabisbaixos. Parecia cocaína. Mas era só tristeza.
Na (pá) Virada Cultural da Sé, quem tocou foi o terror. 6h05. Estampidos ainda eram ouvidos na ladeira. Vida loka. Cabulosa. O cheiro era de pólvora. Mas eu prefiro as rosas. E os milhões de fãs também.

http://www.estadao.com.br/ext/especial/extraonline/galerias/cidades/2007/05/06/08133000/

30 abril, 2007

Vira, vira, vira...

Arregalei meus olhos quando vi a programação da Virada Cultural 2007 que será nos dias 5 e 6 de maio das 18h. às 18h. A extensa programação já era esperada, muitos lugares disponíveis também. Mas fiquei surpreso pela qualidade e diversidade dos nomes confirmados para este ano. Entrei no sítio do evento e fiz minha programação com "Leitura Dramática : Fernando Pessoa X Drummond" no MASP, o filme "Baixio das Bestas" no CineSesc, Zimbo Trio e Fabiana Cozza no Teatro Municipal, apresentação de Tango no Mercado Municipal, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e a Jazz Sinfônica no Parque Villa-Lobos, Paulinho da Viola no MIS, e a lista segue com Plebe Rude, Pato Fu, Racionais MC´s, Chico Pinheiro, Duofel, Garotos Podres, Ratos de Porão, Sergio Dias, Ed Motta e muitos outros.

Veja a programação completa:
http://www.viradacultural.com.br

2a. Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo

Eu sou louco por teatro de grupo. Pela pesquisa e pela forma libertária que eles buscam na linguagem teatral se expressar e quase sempre levar a uma reflexão crítica de nosso tempo. Por isso a programação deste festival que se inicia hoje passa a ser um aprendizado a mais, pois descortinam várias visões de mundo, muitas linguagens de diversos países latinos. Um coletivo do MST abre a programação nesta segunda 19h. no Centro Cultural São Paulo.
http://www.centrocultural.sp.gov.br/programacao/teatro.htm

27 abril, 2007

Utopia nas veias

Dentro do projeto "Sessão Desconto" (15h.) estará em cartaz durante esta semana o filme "Batismo de Snague", de Helvécio Ratton, abrigado no Shopping Santa Cruz. Pagarei R$ 2,00 (meia-entrada).


Batismo de sangue


*por Frei Beto


Levei dez anos para escrever “Batismo de Sangue” (editora Rocco), de 1973, ao sair de quatro anos de prisão, a 1983. Reviver toda a saga de um grupo de frades dominicanos na luta contra a ditadura militar fez-me sofrer. Revirei a memória, fiz entrevistas e pesquisas, revisitei os locais dos acontecimentos, consultei arquivos. Sim, arquivos. O governo federal, comandado por dois ex-presos políticos (Lula na presidência e Dilma Rousseff na Casa Civil), desconsidera a memória nacional ao não abrir os arquivos das Forças Armadas. Felizmente existem arquivos fora do controle militar. Sobretudo arquivos vivos, sobreviventes da grande tribulação.

Deu-me trabalho levantar os últimos momentos do líder revolucionário Carlos Marighella e o intrincado cipoal em torno de seu assassinato pela repressão, em 4 de novembro de 1969. E doeu-me descrever em detalhes a paixão e morte de frei Tito de Alencar Lima, levado ao suicídio em 1974, aos 28 anos, em decorrência das torturas sofridas nas dependências do II Exército, em São Paulo. Queriam forçá-lo a assinar confissões falsas e delatar pessoas. Não escutaram senão o silêncio daquele religioso que sabia ser “preferível morrer do que perder a vida”, como escreveu em sua Bíblia.

Um dia dei o livro a Helvécio Ratton, que também militou na resistência à ditadura e esteve exilado. Escrevi na dedicatória: “Helvécio, a vida supera a ficção”. Diretor de cinema, ele tomou a si o desafio e levou às telas “Batismo de Sangue”, que estréia a 20 de abril. As cenas - ambientação precisa dos anos 60 - foram rodadas no Brasil e na França. Integram o elenco Caio Blat (no papel de Frei Tito), Ângelo Antônio (frei Oswaldo), Léo Quintão (frei Fernando), Odilon Esteves (frei Ivo), Daniel de Oliveira (que me interpreta), Marku Ribas (Carlos Marighella), Marcélia Cartaxo (Nildes), Cássio Gabus Mendes (delegado Fleury) e outros.

Filmes nem sempre retratam adequadamente os livros nos quais se inspiram. Em geral, a literatura ganha em profundidade da arte cinematográfica, obrigada a condensar-se num par de horas. O livro, traduzido para o francês e o italiano (e, em breve, para o espanhol), merecedor do mais conceituado prêmio literário do Brasil, o Jabuti, atrai o interesse dos leitores desde sua publicação há 24 anos. Falei ao Helvécio: “Livro é livro, filme é filme; não quero interferir”. O máximo que solicitou, a mim e aos frades Fernando de Brito, Oswaldo Rezende e ao ex-dominicano Ivo Lesbaupin, foi conversar com os atores sobre a nossa experiência na guerrilha urbana e na prisão. Li o roteiro de Dani Patarra, considerei-o excelente, mas preferi não opinar.

Em março, no Festival de Brasília, vi o filme pela primeira vez. Fiquei transtornado: arrancou-me lágrimas, reavivou-me a indignação contra o arbítrio, ativou-me as teias da emoção, enlevou-me pela trilha sonora, fez-me agradecer a Deus pertencer a uma geração que, aos 20 anos, injetava utopia nas veias. Fiquei embevecido frente à força estética das imagens produzidas pelo talento de Helvécio Ratton. O Festival de Brasília concedeu-lhe os prêmios de Melhor Direção e Melhor Fotografia (Lauro Escorel). No Festival de Tiradentes, a platéia de mais mil pessoas, a maioria jovens, expressou a emoção em prolongadas palmas. A arte brasileira adianta-se ao governo e escancara os bastidores da ditadura. Este é um filme a ser visto especialmente por quem não viveu os anos de chumbo. Ali está o estupro da mãe gentil, gigante entorpecido, o Brasil sem margens plácidas, arrancado do berço esplêndido, resgatado à democracia pelos filhos que, por amor e esperança, e sem temer a própria morte, não fugiram à luta.

"Batismo de Sangue” é um hino à liberdade. Nele se revela a história recente de uma nação e a fé libertária de um grupo de cristãos. Emerge, contundente, a subjetividade dos protagonistas, como frei Tito, em quem se transubstanciou a dor em amor, o sofrimento em oblação, as algemas em matéria-prima desta invencível esperança de construirmos um mundo em que a paz seja filha da justiça, e a felicidade, sinônimo de condição humana.

*Frei Betto é escritor.

(fonte: www.correiodacidadania.com.br)

17 abril, 2007

Primeira Posição


Primeira Posição. Não é tão simples, mas dá pra encarar. Parece inofencivo este trecho, porém está me dando trabalho. Com ele inicio o segundo volume do Ludwig Streicher. Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha! Demoroooooo...

16 abril, 2007

Adubo no CCSP


Uma dica de teatro. A peça Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo do grupo TUCAN que estará em cartaz no Centro Cultural São Paulo até dia 28 de abril (então vá logo!). A peça é muito boa e vale a pena ir até lá e conferir. Aborda o tema da morte tendo como ponto de partida um atropelamento... Questionamentos (e estamos aqui pra isso) do antes, durante e depois. Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h. 7,5 estudantes, professores da rede estadual de ensino...

13 abril, 2007

O Contrabaixo Acústico de um Urbanóide

Não sei se o termo "urbanóide" existe, mas resolvi colocar essa palavra assim mesmo no título do blog. Ficou pequeno esse espaço para ser exclusividade do meu contrabaixo acústico, apesar dele merecer. A origem do título tem a ver com as coisas que me cercam e a influência da metrópole paulistana no meu cotidiano. Sou impulsivo. E sou assim por viver numa cidade que me conduz a esquecer do vai e vem dos dias em troca da reflexão sobre ela e de sua dinâmica que me despertam para um novo começo. Isso explica tudo (ou não).

urbanidade
do Lat. urbanitate
s. f.,
qualidade do que é urbano;
delicadeza;
civilidade;
cortesia;
afabilidade.

O cinema é uma das portas para refletir essas questões existenciais. É claro, depende do filme. O bom é que neste domingo eu terei mais de uma chance de assistir a um bom filme. Não está sabendo ainda??? Trata-se do "São Paulo no Cinema". Não quero discutir (?) aqui a questão da arte como mercadoria e blá, blá, blá. Quem está na chuva...

Compre o seu ingresso no domingo, dia 15 de abril, você ganha um passaporte para assistir a qualquer filme nos cinemas participantes da Grande São Paulo no próprio domingo, na segunda (16/04) ou na terça (17/04),pagando, por sessão, apenas R$ 3,00.

http://www.saopaulonocinema.com.br/

12 abril, 2007

Orquestra Jazz Sinfônica



A Orquestra Jazz Sinfônica também fez parte da minha difusa e delirante formação musical. Cheguei a atravessar várias vezes sozinho a cidade em direção ao Memorial da América Latina para ver o maestro Cyro Pereira empunhar a sua batuta e comandar seus músicos. O fato é que neste sábado, dia 14, tudo leva a crer que este ritual se repetirá. Nem tanto por ser gratuita a apresentação, mas sim pelo que se espera do programa. Lá vai:

1 - Último Dia – Levino Ferreira

2 - How do you keep music playing? - Michael Legrand

3 - Brasiliana nº 2 para viola e orquestra - Cyro Pereira

4 - Don Din - Maurício de Souza

5 – Milestone - Miles Davis

6 – Estate - Bruno Martino e Bruno Brighetti

7 - Cassiando Encrenca - Cyro Pereira

8 - Adios Nonino - Astor Piazzolla

9 - As Rosas não Falam - Cartola

10 - It might as well be spring - R.Rodgers - O. Hammerstein

11 - Estripulia Elétrica - Moraes Moreira


11 abril, 2007

Skatalites e The BellRays no Brasil

Duas bandas muito influentes na minha trajetória musical estarão de passagem pelo Brasil.

A primeira a aterrissar em terras tupiniquins fez história. São os Skatalistes. Me belisca! Não estou acreditando! A banda/lenda viva do ska tem duas datas no Sesc Pompéia dias 17 e 18 de maio. Já tenho que pensar em uma desculpa para faltar na escola onde dou aula...


E para encerrar o mês de maio inesquecível a banda que mistura soul e punk. Senhoras e senhores: The BellRays! Imaginem a Paula Lima cantando músicas do Cólera... Yeahhhh!!!
Escute os sons das bandas:

09 abril, 2007

O tempo e o III SENCON

A Sonia Ray, baixista lá de Goiás, acaba de me enviar um e-mail sobre um encontro de baixista que acontecerá em Goiânia em outubro deste ano. Trata-se do III SENCON - Semana Nacional do Contrabaixo, este ano contará com a presença (já confirmada) de Jeff Bradetich (University of North Texas e ISB).

Breve informações no link:


Sei que não é desculpa. Mas está mais difícil estudar depois que peguei 25 aulas de geografia para lecionar. Chego em casa com a sensação de que fui atropelado por um ônibus. Continuo estudando, porém o tempo para meu instrumento encurtou. Veja no mapa onde é que eu fui parar...