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As estrelas
são o meu protetor de tela
as paredes
pulverizadas quando escuto sua voz
você desliga o telefone
economizamos no interurbano
eu saí no prejuízo
pois ainda tinha algo a dizer
e o que eu não disse
você não precisava dizer, mas disse
melancolia só é boa em poemas
no cotidiano ela é só amargura
a minha disfarço numa folha de papel
mesmo que seja uma tela de computador
quando digo que te quero
te quero mesmo
No dia seguinte
parecíamos dois estranhos
ela levantou sem dizer uma palavra
eu não tive coragem para tanto
fez o café
colocou na minha xícara
até transbordar
escorreu pela mesa
não abriu as cortinas
nem as janelas
o café esfriou
não abriu o jornal
voltou para a cama
e desatou a chorar
saí na ponta dos pés sem me despedir
não imagino a dor de sua perda
Me mordeu no pescoço
puxou meus cabelos
apertava meus seios em desespero
o meu batom estava por todo seu rosto
não queria que parasse
e quando ameaçava fazê-lo
sussurrava para continuar
e ele continuava
eu estava exausta
ele também
isso durou mais algumas horas
e foi assim durante uma semana
no aeroporto lhe comprei uma garrafa de vinho
se embriague, eu disse
nos abraçamos
a eternidade nunca foi tão cruel
Saio de casa
esqueço as janelas abertas
não estou aí para dizer o que sabe
o silêncio impera durante o dia
chega a tarde
sufoca minuto a minuto
olho o relógio
sufoca minuto a minuto
a lua atente ao meu pedido
e surge preguiçosa
chegando em casa
vejo que a porta está aberta
é você
chegou sem avisar
mas pelo visto está de saída
vai levar um bom tempo para eu me acostumar
Certas coisas tomam desdobramentos estranhos
parecem labirintos
sem nenhuma migalha de pãopara marcar o caminho
Ariadne e Teseu
nunca se perderiam em Santo Amaro
ela é o novelo
e sua presença destoa e ilumina
Dédalo aqui se sentiria em casa
ladeiras e bifurcações
boates e igrejas
ambulantes no metrô
daqui do quarto andar
ninguém se esbarra
uma piscadela
e ela não está mais lá
Tonalidades de azul escuro no céu
perto do cinza
frio abafado
a umidade invade os pulmões
acordei meia hora mais cedo
resolvi ir caminhando para o trabalho
péssimo dia para isso
desabam as constelações
o esforço de semanas
reduzido a borrões
se esfarelam
diluem
corro para um ponto de ônibus
pego o primeiro que aparece
não sei para onde vai
espero que para bem longe
Calma, calma
me tenta, você
uma procurada
atrás de uma cifra que eu escrevi
eu pego os versos e alguns acordes
pra ti, esse novo
na verdade era um desses versos de acordes
mas encaixou tão bem
provavelmente eu olharia pra você na rua
e o que não se fazia antes
se faz depois
isso me alivia
gosto do teu impulso
impulso é uma palavra tão sexy
acho que a maioria das palavras que tem r eu gosto
força, sussurro, suspiro, surto
Chuva na estrada
retomo a atenção
preciso que parar de me distrair
posso causar um acidente
as cidades passam rapidamente
minha velocidade redobrada
não faz nenhum sentido
agora essa estiagem
posto de beira de estrada
bem fuleiro
peço um café
o copo americano vem molhado
do bolso da calça jeans tiro sua carta
nela tem um mapa
observo a distância que nos separa
parece pouco agora
Surge do nada
de outra cidade
com sua enorme mochila
entra no vagão do metrô
ajudo em desequilíbrio
esbarro nas pessoas
ela sorri, agradece
peço desculpas
me pergunta algo
aponta no mapa
não sei onde é
mas me esforço para dizer algo
é na próxima estação
não deveria ter dito isso
mas disse e ela vai
Mudou o destino daquela garota
lábios e dentes levemente escurecidos
sua cabeça girava
não parava de sorrir
tinha um plano
sempre tinha um
realizava todos
mesmo que em sonhos
transmitia sua alegria por telepatia
alguém numa cidade
bem lá longe
poderia captar sem precisar de parabólica
escreveu um bilhete
voltaria em alguns dias
talvez meses
o sol brilhava muito naquela manhã