12 abril, 2011

Offline


A
s estrelas
são o meu protetor de tela
as paredes
pulverizadas quando escuto sua voz

você desliga o telefone
economizamos no interurbano
eu saí no prejuízo
pois ainda tinha algo a dizer

e o que eu não disse
você não precisava dizer, mas disse
melancolia só é boa em poemas
no cotidiano ela é só amargura

a minha disfarço numa folha de papel
mesmo que seja uma tela de computador
quando digo que te quero
te quero mesmo


Não adianta fincar os pés


No dia seguinte
parecíamos dois estranhos
ela levantou sem dizer uma palavra
eu não tive coragem para tanto

fez o café
colocou na minha xícara
até transbordar
escorreu pela mesa

não abriu as cortinas
nem as janelas
o café esfriou
não abriu o jornal

voltou para a cama
e desatou a chorar
saí na ponta dos pés sem me despedir
não imagino a dor de sua perda



11 abril, 2011

Brincando com os pêlos do seu corpo


Me mordeu no pescoço
puxou meus cabelos
apertava meus seios em desespero
o meu batom estava por todo seu rosto

não queria que parasse
e quando ameaçava fazê-lo
sussurrava para continuar
e ele continuava

eu estava exausta
ele também
isso durou mais algumas horas
e foi assim durante uma semana

no aeroporto lhe comprei uma garrafa de vinho
se embriague, eu disse
nos abraçamos
a eternidade nunca foi tão cruel



10 abril, 2011

Faça um pedido


Saio de casa
esqueço as janelas abertas
não estou aí para dizer o que sabe
o silêncio impera durante o dia

chega a tarde
sufoca minuto a minuto
olho o relógio
sufoca minuto a minuto

a lua atente ao meu pedido
e surge preguiçosa
chegando em casa
vejo que a porta está aberta

é você
chegou sem avisar
mas pelo visto está de saída
vai levar um bom tempo para eu me acostumar


08 abril, 2011

Duas sacolas de plástico para as cervejas


Certas coisas tomam desdobramentos estranhos
parecem labirintos
sem nenhuma migalha de pão
para marcar o caminho

Ariadne e Teseu
nunca se perderiam em Santo Amaro
ela é o novelo
e sua presença destoa e ilumina

Dédalo aqui se sentiria em casa
ladeiras e bifurcações
boates e igrejas
ambulantes no metrô

daqui do quarto andar
ninguém se esbarra
uma piscadela
e ela não está mais lá



07 abril, 2011

Tranquilidade quebrada


Tonalidades de azul escuro no céu
perto do cinza
frio abafado
a umidade invade os pulmões

acordei meia hora mais cedo
resolvi ir caminhando para o trabalho
péssimo dia para isso
desabam as constelações

o esforço de semanas
reduzido a borrões
se esfarelam
diluem

corro para um ponto de ônibus
pego o primeiro que aparece
não sei para onde vai
espero que para bem longe



05 abril, 2011

Eu me viro, sempre me viro


Calma, calma
me tenta, você
uma procurada
atrás de uma cifra que eu escrevi

eu pego os versos e alguns acordes
pra ti, esse novo
na verdade era um desses versos de acordes
mas encaixou tão bem

provavelmente eu olharia pra você na rua
e o que não se fazia antes
se faz depois
isso me alivia

gosto do teu impulso
impulso é uma palavra tão sexy
acho que a maioria das palavras que tem r eu gosto
força, sussurro, suspiro, surto


Falta muito pouco


C
huva na estrada
retomo a atenção
preciso que parar de me distrair
posso causar um acidente

as cidades passam rapidamente
minha velocidade redobrada
não faz nenhum sentido
agora essa estiagem

posto de beira de estrada
bem fuleiro
peço um café
o copo americano vem molhado

do bolso da calça jeans tiro sua carta
nela tem um mapa
observo a distância que nos separa
parece pouco agora



04 abril, 2011

Brasília


Surge do nada
de outra cidade
com sua enorme mochila
entra no vagão do metrô

ajudo em desequilíbrio
esbarro nas pessoas
ela sorri, agradece
peço desculpas

me pergunta algo
aponta no mapa
não sei onde é
mas me esforço para dizer algo

é na próxima estação
não deveria ter dito isso
mas disse e ela vai
sem nenhum aceno

03 abril, 2011

Garrafa de vinho


Mudou o destino daquela garota
lábios e dentes levemente escurecidos
sua cabeça girava
não parava de sorrir

tinha um plano
sempre tinha um
realizava todos
mesmo que em sonhos

transmitia sua alegria por telepatia
alguém numa cidade
bem lá longe
poderia captar sem precisar de parabólica

escreveu um bilhete
voltaria em alguns dias
talvez meses
o sol brilhava muito naquela manhã